Categoria: carpediem

Condecoração Rosa de Ouro

Rosa de Ouro é um ornamento precioso, feito de ouro puro, matizada ligeiramente com vermelho, criada por hábeis ourives, que são abençoadas todos os anos pelos papas, no quarto domingo da quaresma, chamado Domingo Lætare, e, depois, oferecidas como símbolo permanente de reverência, estima e afeição paterna a monarcas, personalidades ilustres, igrejas notáveis, governos e cidades que tenham demonstrado seu espírito de lealdade para com a Santa Sé. Como o próprio nome indica, ela representa uma rosa, um buquê de rosas ou uma pequena roseira de ouro maciço. A flor dourada brilhando reflete a majestade de Cristo, com uma simbologia muito apropriada porque os profetas O chamaram “a flor do campo e o lírio dos vales“, os espinhos e o matiz vermelho relembram a sua paixão”.

Rosa de Ouro da Biblioteca Apostolica Vaticana

Rosa de Ouro surgiu no início da Idade Média. A primeira referência esta testemunhada numa bula de 1049, pela qual Leão IX isentou o Convento de Santa Cruz de Woffenheim (Alsácia), com a condição da abadessa enviar anualmente uma rosa de ouro à Santa Sé. Desde a Baixa Idade Média a honraria da Rosa de Ouro é utilizada para condecorar um soberano e substituiu a honraria das Chaves da Confissão de São Pedro, ou Chaves de Ouro, instituída no século VIII, pelo Papa Gregório II. A data exata da instituição da rosa é desconhecida. De acordo com algum é anterior a Carlos Magno (742-814), de acordo com outros teve sua origem no fim do século XII; mas, certamente já existia antes do ano 1050, quando o Papa Leão IX (1051) fala da Rosa de Ouro como uma instituição já antiga, em seu tempo. O costume de oferecer a Rosa de Ouro, teve início quando os papas transferiram-se para Avinhão, continuando depois que o papado retornou para Roma. O príncipe condecorado recebia a Rosa de Ouro do papa, em solene cerimônia, sendo acompanhado pelo Sacro Colégio dos Cardeais. No início do século XVII passou a ser ofertada somente a rainhas e princesas. Isabel, Princesa Imperial do Brasil, recebeu em 1889 de Leão XIII tal condecoração, pela proclamação da Lei Áurea em 1888.

Para tal homenagem, o próprio Papa redigiu uma carta para a Princesa:

“Leão XIII, Papa

À muita amada em Cristo Filha Nossa, Saúde e Benção Apostólica.

As preclaras virtudes que adornam Tua pessoa e as brilhantes demonstrações de singular dedicação que Nos deste a Nós e a esta Sé Apostólica, pareceu-nos merecer sem dúvida um testemunho particular e insigne de Nosso Apreço e paternal afeto para contigo.

Para te apresentarmos porém esse testemunho, nenhuma oportunidade mais favorável podia dar-se, conforme entendemos, do que a atual. Com efeito, novo esplendor acaba de realçar ainda mais os Teus louvores por ocasião da Lei que aí foi recentemente decretada e por Tua Alteza Imperial sancionada, relativa àqueles que, achando-se nesse Império Brasileiro, sujeitos à condição servil, adquiriram em virtude da mesma lei a dignidade e os direitos de homens livres.

Assim, pois, muito amada em Cristo Filha Nossa, Nós te enviamos de mimo a Rosa de Ouro que, ao pé do altar, consagramos com a prece apostólica e os demais ritos sagrados, consoante a usança antiga de Nossos Predecessores.

Por esta razão investimos do caráter de Nosso Delegado apostólico ao amado Filho Francisco Spolverini, Nosso Prelado Doméstico e Protonotário Apostólico, que exerce as funções de Internúncio e de Enviado extraordinário Nosso e desta Santa Sé, junto ao muito amado em Cristo Filho Nosso Pedro II Imperador do Brasil, e na ausência dele junto à Tua Alteza Imperial, com o fim de levar-Te a referida Rosa e de exercer o honrosíssimo ministério de fazer-Te a tradição dela, observando as sagradas cerimônias do estilo.

Nesse mimo, porém, que Te ofertamos, é desejo Nosso que Tua Alteza Imperial não olhe para o preço do objeto e seu valor, mas atenda aos mais sagrados mistérios por ele significados. Assim é que nessa flor e no esplendor do ouro se manifesta Jesus Cristo e sua suprema Majestade. É Ele que se denomina a flor do campo e o lírio dos vales. Na fragrância da mesma flor se exibe um símbolo do bom odor de Cristo, que ao longe reascendem todos os que cuidadosamente imitam as suas virtudes.

Daí é impossível que o aspecto deste mimo não inflame cada vez mais o Teu zelo em respeitar a religião e em trilhar a vereda árdua, sim, mas esplêndida da virtude.

No entanto, implorando toda a sorte de prosperidades e venturas para Ti, e todo o Império Brasileiro, muito afetuosamente no Senhor outorgamos a Benção Apostólica a Ti, muito amada em Cristo Filha Nossa, e à Tua Imperial Família.

O Papa Francisco oferece a terceira Rosa de Ouro a Nossa Senhora de Fátima.
Foto: O Papa Francisco oferece a terceira Rosa de Ouro a Nossa Senhora de Fátima.

Dado em Roma, junto a São Pedro, sob o anel do Pescador, no dia 29 de maio do ano de 1888, IIº no Nosso Pontificado.”

Em tempos mais recentes, depois do Concílio Vaticano II, a condecoração pontifícia passou a ser um presente dos papas a Nossa Senhora: Fátima em 1965 por Paulo VI; Aparecida no Brasil, em 1967 por Paulo VI; de Luján em 1982 por João Paulo II; de Guadalupe; de Loreto; da Evangelização em Lima, Peru, em 1988, por João Paulo II; de Jasna Gora em Częstochowa, Polônia, em 2006 pelo Papa Bento XVI; Aparecida no Brasil, em 2007, por Bento XVI, e Pompeia, na Itália, em 2008, por Bento XVI. O Papa Francisco ofereceu a terceira Rosa de Ouro a Nossa Senhora de Fátima no dia 13 de maio de 2017.


No livro: POMPÉIA, Raul. Crônicas do Rio – Coleção Biblioteca Carioca – Volume 41 Serie Literatura p. 45 a 47. – encontramos no Diário de Raul Pompéia a descrição do evento da  cerimônia de entrega da Rosa de Ouro à Princesa Isabel. Veja a seguir:

“Rosa de ouro: é o sumário da semana.

                Desde que, no convento do Carmo, foi exposto o precioso mimo do chefe visível do catolicismo, nenhum outro assunto conseguiu mais disputar-lhe a primazia na atenção geral.

                Rosa de ouro é uma metonímia; roseira de ouro é que se devia dizer.

                Fui vê-la na Lapa, na tranquila saleta da internunciatura. Sobre uma peanha octogonal achava-se um belo vaso de prata dourada, com folhas de acanto e escultura, de serafins com asas.

                Deste vaso nasce a roseira. Uma haste de ouro de quarenta e seis centímetros, ramificando-se logo acima em copiosa folhagem e opulentas rosas e botões. O trabalho de ourivesaria é perfeito; a imitação das flores naturais foi felizmente alcançada; parece-me, todavia, que, trabalhadas as flores e as folhas em ouro fosco, sem aquele reflexo metálico que o artista deixou, a impressão seria mais agradável.

                Isto de querer dar regras à conformação de simples símbolo é, afinal de contas, uma extravagância. Sua Santidade não pretende enviar-nos, com a rosa, uma amostra da arte dos ourives romanos.

                “CeIsissima principi imperiaIi EIisabeth, BrasiIice Regenti. Leo P.P. XIII- III Nonas Maia. MDCCLXYVII.” Vê-se esta inscrição gravada no vaso. O papa quis premiar a princesa regente com a mais bela graça de sua apostólica amabilidade, pelo serviço a Deus e aos homens prestado com a decretação de 13 de Maio.

                Monsenhor Esberard publicou aqui um volume informando o público da importância do significativo presente. É um favor especialíssimo do Sumo Pontífice, de tradição medieval. Benzia-se outrora e trasladava-se a rosa com extraordinária pompa de procissões e cavalgatas.

                Ainda hoje é uma cerimônia imponente a bênção das flores na basílica de São Pedro, ocasião em que o próprio papa deposita em uma cápsula existente no meio da maior, o bálsamo do Peru e a poeira de almíscar, previamente consagrados, que devem equivaler a fragrância’ natural.

                Cento e sessenta e seis dádivas deste gênero têm sido feitas. As últimas, segundo o catálogo da citada publicação, são as concedidas a Isabel II, rainha de Espanha, por Pio IX, em 1868, e a Maria Cristina, regente de Espanha, por LeãoXII1,em 1886.

                Durante os dias da exposição, na Lapa, o convento tornou-se o centro de uma incalculável romaria de visitantes.

                Hoje, sexta-feira (guardei-me propositalmente da quinta, para mandar notícia), dia marcado para a entrega da rosa, tivemos a cidade em verdadeira festa nacional.

                Às 11 horas da manhã, trasladou-se a rosa do convento do Carmo para a capela imperial, levando-a o internúncio em um carro do Paço, guardado por um piquete de cavalaria.

                A capela imperial, decorada para a cerimônia, oferecia o espetáculo do mais caprichoso esplendor. Setineta, estrelas de ouro e prata sobre vermelho ou azul, sanefas de veludo e franjas na capela-mor,um trono para a família imperial e bancadas em frente para os assistentes eclesiásticos; no altar-mor, entre as palmas, uma lâmpada elétrica, deslumbrante, apesar do dia; no coro, outro foco elétrico (destinado a auxiliar a fotografia do ato da entrega) passeando um jato de luz viva pela ornamentação do templo.

                Deposta a rosa áurea sobre a banqueta do altar, começou a cerimônia.

                A concorrência aristocrática foi pequena, diversamente do que costuma ser nas solenidades principescas da capela, quando só distribuem cartões de privilégio; apontavam-se as famílias das tribunas. A invasão de povo miúdo foi superior a quanto se possa imaginar em um recinto relativamente estreito.

                A missa foi celebrante o internúncio, acolitado por três reverendos cônegos. Entoou-se, no coro, o Kirie e Glória de Mozart. Houve depois o sermão do Sr. dom Antônio de Macedo, bispo do Pará, seguindo-se a entrega da rosa.

                A princesa imperial deixou o trono à esquerda e foi ajoelhar-se diante do sacerdote, de quem recebeu o presente apostólico, ouvindo as palavras do oferecimento, beijando, ao retirar-se, a rosa de ouro e a mão do comissário pontifício.

                O sermão do Sr. bispo do Pará foi uma conferência sobre um texto emprestado de abolicionismo da Bíblia; foi mais a explicação da oferta do papa,como uma recompensa e como um estimulo, e um grito de alarma contra aqueles que pretendem, agora que foi a terra da pátria revolvida para uma eforescência gloriosa – plantar os gérmens da perdição dos costumes e das almas, guerreando entre nós a verdadeira religião de Cristo. Aboliu-se a escravidão do trabalho, disse, falta fazer-se a abolição do cativeiro das consciências. Sobre este aforismo conseguiu Sua Exa, não sei como, combater a liberdade de cultos. Referindo-se à imigração, disse que melhor fora aperfeiçoarmos a atividade dos nossos patrícios pela educação e pela fé.

                O sermão do sr. dom Antônio de Macedo era o principal atrativo da festa. O boato preparara uma expectativa interessada, anunciando maravilhas da erudição da eloquência do pregador. A oração não desmentiu a expectativa. Sua Exª tem a presença simpática, a voz límpida, o tom modesto. Infelizmente certas pausas da dicção, acentuando uma maneira tarda de explicador ou catedrático, fazem decair a eloquência do sábio prelado para o gênero cacete.

                Durante o ofício, distribuíram as indulgências plenárias e simples de sete anos. O murmúrio da multidão não me deixou ouvir.

                Com esta última nota tenho concluído o quadro rápido da falada solenidade, o epílogo das festas da abolição e a segunda missa do Brasil, como a denominou o sr. bispo do Pará “a primeira, dos descobridores, diante da natureza virgem, tendo por único aparato a música das ondas e o cenário profundo das florestas, a de hoje, comemorando a derradeira vitória da civilização, com toda a grandeza da liturgia católica”.

                Uma semana de triunfos para as instituições ancias. O prestígio da honestidade é tão forte que, animado por ele, os próprios cadáveres históricos revivem para a luz, e para a glorificação.

                Ninguém diria, diante da teoria veneranda dos padres da capela imperial, que aqueles velhos congregados para uma festa de liberdade, aquele velho no púlpito comovido,comovendo, ao lembrar a coragem de uma mulher que passou a desafiar a reação poderosa de milhares de egoísmos, para proteger a humanidade sofredora, aquela festa de catolicismo aplaudindo a evolução reformadora das sociedades, aquelas hieráticas espáduas do gorgorão roxo, sob a luz elétrica do século XX, saíam de um capítulo anacrônico da história média.

                Dir-se-ia a religião nova do bem dos homens, sem céu e sem fantasmas, o cerimonial de um rito moderno, da seita positiva da justiça.

                Assim, a monarquia, do domingo, durante a estrondosa conferência de José do Patrocínio.

                Prudhomme, o petroleiro das Semanas políticas, o fundibulário do impropério duro e do sarcasmo contra todas as convenções hipócritas,desde a suprema razão do direito divino, até o mínimo tucano, pobre avezinha ridícula que empresta o papo à realeza, José do Patrocínio galgou a tribuna para encontrar peito a peito a propaganda republicana da atualidade.

                Quem se viu só como ele, debelando três séculos de preconceito, sem encontrar auxílio, nem mesmo nos que conversavam a retórica da igualdade humana, é que pode ensinar quanto valeu ao trono o trono ter sido honesto.

                Esteve terrível de virulência. Mas isto explica-se, da parte de um lutador a quem se não tem poupado golpes de ódio, vibrados muitas vezes à traição e muitas vezes mesmo envenenados cruelmente na calúnia.

                Esteve, em compensação, soberbo de inspiração e fluência.

                A conferência do teatro Lucinda é a notícia política mais interessante que tive a registrar.”

28 de setembro de 1888.

Diário de Minas, Juiz de Fora, MG, 30 sct. 1888.

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